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16 de março de 2018

Prof. Sidarta Ribeiro fala de sonhos, memórias e loucuras

O sono e os sonhos têm um papel fundamental na consolidação e reestruturação das memórias, indispensáveis para o aprendizado e na criação de novas ideias. Foi com este foco e com este preâmbulo que o Prof. Dr. Sidarta Ribeiro, pesquisador do Instituto do Cérebro – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), abordou o tema Sonhos, memórias e loucuras, no decurso de uma fantástica palestra que arrastou centenas de pessoas ao Auditório Prof. Sérgio Mascarenhas (IFSC-USP) no final da tarde do dia 5 de junho, em mais um programa Ciência às 19 Horas.

Nesta notável apresentação, Sidarta Ribeiro, colocou em perspectiva diversas noções freudianas, entre as quais a que postula a semelhança entre sonho e delírio psicopatológico. Como evoluiu a mente humana? Respostas foram dadas pelo pesquisador numa perspectiva evolucionista, partindo do sono de nossos ancestrais mais remotos, até chegar à fenomenologia dos sonhos contemporâneos, utilizando dados da genética, neurofisiologia de sistemas e psicologia.

Mas, para o leigo, qual é a relação entre o sono e o sonho? Eles têm caminhos paralelos ou caminham em um mesmo trilho para a consolidação das memórias? Para Sidarta Ribeiro, o sono é muito mais antigo. Calcula-se que ele tenha tido sua origem há cerca de quinhentos milhões de anos e, provavelmente, seja uma invenção dos mamíferos existentes nos últimos cem milhões de anos. O pesquisador afirma que existem muitas evidências de que o sono favorece a consolidação e o reprocessamento das memórias, enquanto que as evidências com relação aos sonhos sejam muito mais escassas: Apenas há três anos se demonstrou, num laboratório, que o conteúdo do sonho favorece a cognição. Então, o que se acredita hoje é que o sonho é um epifenômeno do sono, mas que também tem valor cognitivo explica o docente.

Usualmente, as definições entre sonho e delírio são bem distintas, já que o delírio é tido como um reflexo de algum tipo de doença. Então, qual a diferença entre os dois estados? Para esta questão, Sidarta Ribeiro afirma que, já no Século XIX, os pais da psiquiatria, como Emil Kraepelin e Freud, reconheciam uma semelhança muito grande entre sonho e psicose, especialmente no que dizia respeito aos sintomas positivos da psicose, como o delírio. Essa teoria, que foi muito consistente ao longo de várias décadas, perdeu espaço após os anos 1950 quando se descobriu que, modulando receptores de dopamina, era possível conter o delírio psicótico. Recentemente, existe, de fato, uma relação entre esses dois estados: Sim, existe, porque sem o sistema dopaminérgico, envolvido em recompensa e punição, não há sonho, embora exista sonho REM, que é o sono que, tipicamente, contém os sonhos. Então, na verdade, essa afirmação de que sonho se parece com delírio psicótico, hoje é muito forte porque existe um mecanismo que é exatamente o sistema dopaminérgico, elucida Sidarta.

O Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde Sidarta Ribeiro desenvolve sua atividade, foi criado em 1995, quando neurocientistas brasileiros que trabalhavam nos EUA e na Europa começaram a cogitar a ideia de regressar ao Brasil, com a intenção de promover uma repatriação para um revigorar o país com talentos que se encontravam no exterior. Embora tenha sido um processo longo, o certo é que em 2011, no dia 13 de maio, foi enfim criado o Instituto do Cérebro, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, voltado principalmente para pesquisa. Ainda hoje, dos dezessete professores que estão nesse instituto, cinco são estrangeiros, havendo a intenção de, pelo menos, manter vinte e cinco a trinta por cento de professores não brasileiros.

No que diz respeito ao Laboratório Sono, Sonhos e Memória – o lar de Sidarta Ribeiro no Instituto do Cérebro da UFRN, muitas das pesquisas desenvolvidas nessa infraestrutura são voltadas à cognição de mamíferos (macacos, ratos e gatos), mas também tem uma pesquisa importante com células tronco, reprogramação celular, além de outras linhas de pesquisa, de informática, mas, certamente, a parte de memória e de aprendizado é muito sólida. O laboratório navega em diferentes modelos de testes, desde ratos e camundongos até o ser humano, no sentido de tentar entender como, em diferentes níveis, se o processam as memórias, conscientes ou inconscientes, levando ao aprendizado durante o sono e a vigília.

Uma segunda linha de pesquisa deste laboratório diz respeito à comunicação vocal e competência simbólica em animais não-humanos. O foco é o sagui (Callithrix jacchus), uma espécie bastante vocal de macaco do novo-mundo. Atualmente, o laboratório dedica-se ao estudo etológico do repertório vocal do sagui, bem como ao mapeamento, por meio da expressão de genes imediatos dependentes de cálcio, das áreas e vias cerebrais relacionadas à audição e produção das vocalizações.

Mais informações sobre o instituto e o trabalho laboratorial de Sidarta Ribeiro poderão ser encontradas, clicando AQUI

(Rui Sintra – jornalista)

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