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16 de março de 2018

O papel do venture capital no desenvolvimento tecnológico

Qual é o papel do venture capital no desenvolvimento tecnológico? Bem, para responder a essa pergunta eu vou levar, no mínimo, cinquenta minutos. Foi desta forma descontraída e bem humorada que o Prof. Fernando Reinach iniciou sua breve conversa com a Assessoria de Comunicação do IFSC, um pouco antes de iniciar sua palestra, ocorrida no dia 1º de outubro em mais uma edição do programa Ciência às 19 Horas, um evento que esteve inserido na 3º SIFSC – Semana Integrada do Instituto de Física de São Carlos.

Graduado em Biologia, pela USP (1978), Fernando Reinach fez seu Mestrado em Histologia e Embriologia (1980) também na USP, e o PhD em Biologia Molecular (1984) no Cornell University Medical College (USA), tendo sido um dos mais destacados docentes da USP. Atualmente, Reinach é Gestor do Fundo Pitanga de Investimento.

Na verdade, o venture capital é um dos instrumentos que visa transformar o conhecimento científico – aquele que é feito nas universidades e nos centros de pesquisa – em algo produtivo, por intermédio da ação de empresas criadas pelos próprios cientistas: ou seja, transformar o conhecimento em dinheiro, converter as ideias científicas em empresas. E, segundo Reinach, na maior parte dos países desenvolvidos, o financiamento para este tipo de ação vem dos fundos de venture capital. É claro que estamos falando do que acontece no exterior, já que no Brasil ainda existe algum preconceito dos cientistas darem esse passo, sendo raro encontrarmos essa realidade em nosso território: Existem pouquíssimas empresas de cientistas no nosso país, até porque ainda não existe essa cultura: os cientistas vêm esse caminho como uma espécie de prostituição. Mas, nas sociedades desenvolvidas a criação dessas empresas está indelevelmente ligada ao desenvolvimento econômico e social, que justifica grande parte do investimento em pesquisa, refere Reinach.

Para o nosso entrevistado, o gargalo está no fato da universidade ter ficado parada no tempo: Durante toda a época da ditadura, em nosso país, a universidade ficou isolada do setor privado. Nessa época, eu estava na universidade e nós tínhamos uma reação enorme contra o governo. O governo era um “inimigo” que matava nossos amigos, que os torturava etc. Então, a universidade ficou como sendo um centro de resistência, com um pensamento mais livre na época da ditadura, pontua nosso entrevistado. Na interpretação de Fernando Reinach, quando acabou o período militar e uma nova realidade despontou no Brasil, a universidade continuou sua marcha lenta, conservadora, mantendo-se ainda lenta para se abrir a uma sociedade em crescente desenvolvimento, motivo pelo qual a academia ainda vê as ações do setor privado e do governo com certa desconfiança.

Para Fernando Reinach, a academia precisa de dar um grande salto em frente, não só em relação ao tema do capital venture, como também em relação à sua própria postura, tendo dado o exemplo prático de quando idealizou e coordenou o Projeto Genoma – Sequenciamento do Genoma da bactéria Xylella fastidiosa, que foi o ponto de partida para o desenvolvimento de novas pesquisas em genômica: De fato, quando nós publicamos o Genoma Xyllela, ficamos monitorando quem baixava a sequência e descobrimos, por incrível que possa parecer, que, só na primeira noite após a publicação, todas as multinacionais e companhias agrícolas americanas e europeias tinham baixado essa sequência, sem a participação de nenhum brasileiro. Então, concluímos que tínhamos gasto um dinheirão para gerar essa sequência em proveito de estrangeiros. O que adianta a gente ficar fazendo muita ciência, aqui, se você publica essa ciência e nós não temos alguém para dar o próximo passo para transformar essa ciência em alguma coisa prática? Por isso eu digo, o Brasil está despreparado para o sucesso, enfatiza o pesquisador.

Na sua perspectiva da ciência para o século XXI, Reinach afirma que ela é cada vez mais importante para a sociedade moderna, embora, em contraponto, o pesquisador saliente que agora, com tudo muito mais transparente graças às novas tecnologias de informação, um dos problemas da ciência é como é que ela vai justificar os seus gastos para quem paga os impostos: De fato, ainda não tem um questionamento se o gasto com ciência justifica o caso de ter um país pobre: Nós, cientistas, acreditamos que sim. Por outro lado, há quem diga que o que se gasta com ciência é um investimento. Então, se é um investimento, isso tem que ter um resultado, além da formação de recursos humanos. Dando o exemplo da Califórnia (EUA), onde constantemente são criadas empresas de base científica e tecnológica que geram riquezas para o estado e para o país, Fernando Reinach lamenta o caso particular de São Carlos, onde existem poucas e pequenas empresas: No Brasil, você não fala que uma empresa enorme é resultado de investimento científico. Então, se você tiver que justificar com números de impostos gerados, o ideal era que, por exemplo, você investisse dez em ciência, para que os conhecimentos resultantes dessa mesma ciência gerassem vinte em PIB. Meu amigo, estamos muito longe disso, conclui o pesquisador.

(Rui Sintra – jornalista)

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