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16 de março de 2018

Ciência mais que Divertida

O Prof. Dr. Antonio Carlos Pavão, docente do Departamento de Química Fundamental da Universidade Federal de Pernambuco, foi o palestrante convidado de mais uma edição do programa “Ciência às 19 Horas”, que decorreu no dia 29 de maio, no Auditório Prof. Sérgio Mascarenhas.

Na palestra intitulada Ciência mais que Divertida o pesquisador destacou o papel central da ciência para a transformação social, tendo abordado aspectos relacionados com a educação e divulgação científica.

Mas, será que a ciência, como agente de transformação social no país, sempre assumiu esse papel ao longo dos anos? Para o convidado do IFSC, sim, a ciência sempre assumiu esse papel, tendo enfatizado que o Brasil não é um país isolado de seus pares no mundo e que existem exemplos marcantes na História da Humanidade onde o conhecimento determinou o rumo dessa mesma história.

Repare, por exemplo, que o Brasil foi descoberto devido à Química. Ficou admirado dessa minha afirmação? Eu explico. Os portugueses chegaram ao nosso país no dia 22 de abril e logo no dia 02 de maio parte da frota lusitana rumou para a Índia, em busca de especiarias (cravo, canela, menta, etc.). Então, porque é que eles fizeram essas navegações tão complexas? Porque o mercantilismo estava se desenvolvendo de uma forma rápida, precisa ganhar novos mercados e algumas das especiarias não serviam apenas como temperos; elas serviam, também – e principalmente – para conservar os alimentos e isso era crucial para as viagens. Por exemplo, repare que o cravo tem uma substância que é um antibiótico natural, que tem a propriedade de conservar os alimentos por muito mais tempo. Atualmente, todos os alimentos contêm aditivos químicos e as especiarias, nessa época remota, faziam o papel que esses aditivos fazem hoje – refere o pesquisador.

Para Pavão, quem detém o conhecimento detém o poder e, no Brasil, a produção científica não se reflete propriamente na produção industrial. Quando o governo passa a investir mais em ciência e tecnologia, o país tende a se desenvolver mais, e para o acadêmico não existem dúvidas de que no Brasil é fundamental que isso aconteça, mas, para ele, ainda há um longo caminho para ser percorrido.

Contudo, existem questões que precisam ser respondidas: como é que a ciência pode contribuir para a educação dos jovens e o que precisa mudar para que essa educação atinja os níveis desejáveis, até para que nosso país fique mais próximo da excelência internacional?

Para estas questões, o Prof. Antonio Pavão sublinha que é necessário melhorar o ensino dedicado às ciências exatas, porque hoje ainda existe o estigma de que a ciência é chata, rotineira; que o aluno não percebe as conexões que existem entre aquilo que ele está aprendendo e o mundo que o rodeia. Para o pesquisador pernambucano, o que precisa ser feito com urgência é motivar os alunos para que construam e aprofundem seus conhecimentos em ciência e tecnologia. Mas, de que forma?

Motivando! – acrescenta nosso convidado – E uma das alternativas é colocar problemas reais, verdadeiros, para que os alunos resolvam. Por exemplo, colocar para eles a questão de como despoluir um rio, de como medir o Ph em fontes naturais de água, questioná-los sobre quantas e quais as espécies de árvores que existem em São Carlos; fazê-los pesquisar a vida cotidiana das formigas ou das baratas, seus habitats, a importância que esses bichinhos têm para o equilíbrio ambiental; ensinar os alunos a medir a velocidade do vento e como aproveitar essa energia Tudo isso pode motivar os alunos e ajudar a que eles se apaixonem pela ciência e tecnologia, tendo sempre presente que tudo o que estão fazendo tem uma ação direta sobre o nosso próprio planeta. Tudo isso é um conjunto de experimentos verdadeiros, com resultados que podem surpreender, e isso é estimulante para o aluno. A isso eu chamo de experimento final aberto e seria muito importante começar a implantar isso junto de nossos jovens – acrescenta Antonio Pavão.

Se existem dificuldades para que os alunos brasileiros se apaixonem e trabalhem com ciência, também é certo que os temas científicos não suscitam grande interesse por parte do cidadão comum, e isso é um fator preocupante para o convidado do IFSC. Antonio Pavão insiste que para uma eficaz difusão do conhecimento, a divulgação científica é fundamental, até para a construção de um país novo, de um mundo novo.

Para o exercício da cidadania você tem que se apropriar de conhecimentos sobre ciência e tecnologia – por exemplo, avaliar a qualidade e as especificidades do celular que você quer comprar, de um carro, de um eletrodoméstico, ou de outros bens de consumo -, senão você corre o risco de ser manipulado e enganado. Além disso, a sociedade nos coloca questões cotidianas em que o cidadão tem que se posicionar, como, por exemplo, se você é a favor ou contra a clonagem, se concorda com a utilização de células-tronco para tratamentos de doenças, se concorda com usinas termonucleares, etc. Para o cidadão se posicionar sobre essas e outras questões, ele tem que conhecer os temas, tem que estar por dentro das questões relacionadas com ciência e tecnologia. Por isso existe a necessidade de aprofundar a divulgação científica. Toda a produção científica tem que estar associada à sua divulgação, de forma abrangente, quer seja nas escolas, no cinema, na mídia, na rua ou em casa junto com a família – acrescenta o cientista.

Antonio Pavão concorda que o Brasil tem progredido bastante na área científica, só que ainda carece de qualidade. Repare-se que nosso país é o maior produtor de artigos científicos da américa latina, mas, por outro lado, se prestarmos atenção aos fatores de impacto, por exemplo, aí já a Argentina fica na frente. Antonio Pavão afirma que o Brasil deve afinar seu rumo e trabalhar em uma produção de conhecimento que tenha objetivos muito claros de melhoria da condição de vida de toda a população, pensando o planeta como um todo.

(Rui Sintra – jornalista)

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